Por José Roberto Cardoso – Jornalista e Cientista Político
A política possui ironias que muitas vezes nos fazem sentir vergonha. No Espírito Santo, uma delas se tornou evidente: líderes militares que, por anos, criticaram a gestão de Paulo Hartung agora se aliam ao partido que busca reposicioná-lo no centro do poder estadual.
A filiação do presidente da Aspra-ES, Sargento Jackson Eugênio Silote, aos Republicanos o partido do ex-prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini não gerou reações negativas sem motivo. A indignação de alguns membros das forças armadas é um reflexo da memória coletiva; essa memória política não se apaga com postagens nas redes sociais ou discursos de “maturidade”.
Para muitos policiais e bombeiros, Hartung não é apenas um ex-governador bem-sucedido, mas simboliza o período mais difícil da segurança pública no Espírito Santo em décadas. A crise de 2017 deixou um legado de processos judiciais, prisões e uma profunda deterioração moral na corporação. O sofrimento das famílias dos policiais diante do caos institucional e social foi um verdadeiro roteiro de resistência e oposição pública à categoria.
É precisamente por isso que a reaproximação com Hartung gera tanta resistência dentro dos quartéis em relação ao partido de Pazolini. O ex-prefeito tenta apresentar uma imagem de renovação administrativa e liderança moderna, mas sua iniciativa estadual parece cada vez mais ligada às velhas estruturas políticas que têm predominado no Espírito Santo por décadas.
Embora Hartung não ocupe um cargo oficial, sua presença política se tornou bastante visível. Ele emergiu como uma figura central no contexto político em torno de Pazolini. Contudo, o desafio enfrentado pelos Republicanos é que há eleitores militares relutantes em considerar 2017 como um mero detalhe conveniente para as eleições de 2026.
Nos vídeos divulgados após a adesão de Eugênio nas redes sociais, o sentimento dominante era mais do que apenas descontentamento dentro do partido; era frustração. Muitos não compreendem por que líderes que anteriormente condenavam Hartung agora compartilham a mesma agenda política com alguém que representa os piores momentos para suas categorias.
Pazolini precisa lidar com uma contradição delicada: ele se aproxima de uma figura amplamente rejeitada por grandes segmentos das tropas enquanto mantém forte apoio entre setores conservadores e da segurança pública. Essa aliança poderia fortalecer seu capital político com grupos tradicionais no estado, mas certamente terá um custo elevado entre aqueles que desejam distanciar-se do antigo cenário político capixaba.
A retórica sobre um “novo momento” usada pelos apoiadores do Projeto Político Militar não consegue compensar o peso simbólico dessa decisão. Na realidade, esse episódio revela algo maior do que mera lealdade partidária; ilustra como parte da política no Espírito Santo ainda opera sob a lógica das composições pragmáticas, onde críticas antigas são rapidamente esquecidas em nome do cálculo eleitoral.
O fato é que os quartéis mantêm memórias. E no Espírito Santo, 2017 dificilmente será esquecido.

